Expedição Norte-Sul: João Pessoa (PB) até Fortaleza (CE)

Partimos de João Pessoa com a expectativa de estarmos definitivamente em um região com ventos favoráveis e constantes. Mas no início não foi bem assim. Foram 6 horas boiando até a Baia da Traição, 60 km de João Pessoa.

Pensamos: tudo bem amanhã o vento melhora! Não melhorou, aliás ficou ainda mais fraco. Boiando novamente, foram mais 6 horas até Baia Formosa, nossa primeira parada no Rio Grande do Norte. O lugar é muito bonito e pudemos presenciar o por do sol mais belo da viagem.

O dia seguinte amanheceu expetacular, ventos fortes de sudeste. Entramos cedo no mar. Planamos velozmente rumo à Natal, ou melhor Pirangi do Norte, cidade visinha, onde se concentram os velejadores de Natal. Foram 2 horas de velejo alucinante. Ao chegarmos fomos recebidos pelo Ricardo, velejador de Kite e Wind. A vela do Flavio estava bastante rasgada, e aproveitamos que o pai do Ricardo, que praticamente faz tudo e pedimos para ele ver o que podia fazer. Resultado, dois paineis perfeitamente trocados e preço: cortesia.

Saimos para conhecer Natal, a cidade é muito limpa e bem fácil se se locomover utilizando o transporte público. Curiosamente a cidade apesar de ficar no Litoral, quase não da pra ver o mar, devido ao parque das dunas que fica entre o mar e a cidade. Fomos de Pirangi para Ponta Negra, acompanhados pelo Ricardo, pelo Sales, pela Sil e por dois estrangeiros, eles de Kite e nós de Wind. O vento estava muito bom e foi um trajeto bem agradável.

A partir de Natal, começamos uma série de velejos muito bons, aumentando nossa média para mais de 80 km/dia. Enquanto seguíamos rumo norte, para Muriú, fizemos uma parada em Pitanguí. Foi realmente surpreendente esta parada. Logo um grupo de pescadores locais encabeçados por Joca, que tinham nos visto na TV, vieram em nosso encontro. Em menos de 5 minutos já pareciamos amigos de longa data, comendo um peixe feito ali na hora, num buraco na areia, jogando conversa fora... Foi realmente muito especial esses momentos. Isso é que torna a viagem interessante, em um instante nós estávamos sós, no mar, negociando com o vento muito forte e de repente aqui estamos com pessoas muito hospitaleiras e amigáveis.

Em Muriú fomos recebidos pelo gentil casal gaucho Sergio e Magali, e pernoitamos em sua casa. Partimos de Muriú com uma meta a cumprir: contormar o cotovelo do Brasil, onde a terra passa a correr no sentido Leste-Oeste. Em menos de 3 horas cumprimos a missão. O farol do cotovelo é um dos mais altos do mundo, com 62 metros de altura. Chegamos em São Miguel do Gostoso, um lugar belíssimo e excelente para pratica de wind e kite. Para se ter uma idéia, a Pousada do Gostoso, tem como clientes 40% de velejadores. Depois de 2 noite na aconchegante pousada, nos despedimos de Elvio e Tina, proprietários que nos receberam espetacularmente bem e mãos a vela novamente.Foram mais 80 km até galinhos e no dia seguinte mais 95 até Ponta do Mel. Se tivéssemos feito uma média assim desde o início da viagem, já teríamos terminado faz tempo. No meio do trajeto um imprevisto, depois de cair, minha vela abriu um grande rasgo. Saimos e conseguimos fazer o conserto numa praia deserta. Aliás, quando se pensar em praias desertas tem que pensar no litoral norte do RN, foram km e km sem ver uma pessoa, uma vila sequer. Nesses lugares, apesar da insegurança que gera, é que nós visualizamos a beleza da expedição. Tão longe, duas velas, duas pranchas, duas mochilas e nós! A vasta extensão de dunas a nossa frente denunciava o tamanho do Brasil e ao mesmo tempo que nos assustava também nos atraia.

E o vento continuava a soprar favorável, dia após dia fomos deixando para trás km que em outras épocas da viagem demorávamos meses. Depois de pernoitarmos na divisa entre RN e CE, Tibau, seguimos para um lugar turístico bastante visitado, Canoa Quebrada, com suas belíssimas falésias. A essa altura, com tantos velejos, nosso corpo começou a demonstrar sinais de cansaço. Desconsideramos, colocamos como meta Fortaleza, para ai sim dar uma descansada.

Amanheceu com um vento um pouco mais fraco que os outros dias, mesmo assim seguimos para Praia das Fontes. Assim que chegamos, conversamos com Pacheco, bugueiro da região e saimos para um passeio pelas dunas e lagoa da região que é altamente recomendado. Foi muito agradável, inclusive distraiu nosso cansaço.

Agora sim, só faltam 70 km para nossa décima terceira capital, Fortaleza. Vento bom, tudo certo, ou quase! Mal entramos no mar e eu (Diogo) quebrei a retranca, peça fundamental na qual seguramos enquanto estamos velejando. Bem, a princípio nossos planos de chegar a capital foram por água abaixo.

Saimos em Morro Branco e decidimos que como ainda era cedo, 10 horas da manhã, o Flavio seguiria sozinho até lá e depois me traria de carro a retranca para eu seguir ainda hoje. Como o excelente vento, rapidamente o Flavio sumiu no meu horizonte, e três horas depois ele chegou exatamente em frente a casa do Dudu Mazzocato, na praia do Futuro.

Depois de agilizar tudo, conseguir um carro e me levar a retranca, já eram mais de 4 horas da tarde. Seguindo o presuposto de que o Flavio levou 3 horas de viagem, ao entrar na água nesse final de tarde do dia 16 de abril de 2005, eu já sabia que velejaria de noite por pelo menos uma hora e meia.

Resultado, o vento enfraqueceu e só consegui chegar às 7:40 hs da noite. Velejar de noite, num lugar que você não conhece, ainda mais sozinho, é algo assustador. Fiquei tenso durante todo trajeto, preocupado em identificar pedras e o local no qual deveria parar. Quanto a primeira, dei sorte, pois era absolutamente impossível de ver mais do que 2 metros a frente da prancha, quanto a parar no local que o Flavio me indicou foi sorte também. Foi estranho sair na praia de noite, sem ninguém.! “Valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena...”

Por: Diogo Guerreiro e Flavio Jardim
Data: 08/05/05

 
 
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