Chegamos em Ilhabela, um marco da viagem, um lugar que ficava em nossa mente como algo a ser alcançado. Agora com amigos que fizemos aqui e antigos amigos que moram na ilha, esperamos tranquilos por vento favorável.
O litoral paranaense, que temíamos pela falta de vento, foi excepcional, com os melhores dias de velejo da viagem. Vento de travéz com 15 nós, o que nos fez muito felizes ao ver a Ilha do Mel crescendo rapidamente na nossa frente, devíamos estar velejando a mais de 20 nós, foi alucinante.
A Ilha do Mel é muito linda, ficamos 5 dias nela. De cima do Farol, observando nosso horizonte, uma idéia passou por nossa cabeça: percorrer o próximo trecho por dentro da Baia de Paranaguá, até Cananéia/SP. A medida que ficamos na ilha, essa idéia foi ganhando força e de certa forma acabamos desconsiderando alguns impecílios, como a falta de vento dentro do rio. Em breve estaríamos negociando com leves brisas em troca de alguns poucos quilômetros.
Com vento leste fraco chegamos na Ilha do Superaguí/PR, local onde iniciaria nosso novo percurso fluvial. Pela ansiedade de navegarmos num novo ecossistema, com novos animais e vegetação com plantas aquáticas flutuantes providas de raízes que, via de regra, se assemelham às raízes subterrânea e formas incríveis, entramos no rio às 16h30m, muito mais tarde do que nosso bom senso nos dizia. Não deu outra, já tínhamos nos afastado da vila de Superaguí, cortavamos lentamente a água do rio, cercados por mangues, quando às 17h30m, o vento parou completamente. Demoramos a acreditar. Desmontamos os equipamentos e começamos a nadar para uma das margens.
A essa altura, a noite reinava completamente e a noite os monstros são sempre maiores. Aos poucos um pequeno barulho mecânico repetitivo foi ganhando força, era um pequeno barco pesqueiro que vinha em nossa direção, claro que no sentido contrário do que queríamos ir, mas felizes, sinalizamos com uma lanterna para eles e conseguimos uma carona até sua casa, onde passamos a noite. Uma experiência muito especial, conviver com uma realidade tão diferente, sem água, sem banheiro. Nossas conversas surpreenderam ainda mais. Dos seis filhos da família, um morreu, outra desapareceu há três dias atrás e outra ficou cega com água sanitária. Mesmo assim nos acolheram em seu lar. Jamais vamos esquecer...
No dia seguinte seguimos viagem, de vez em quando o vento parava, esperávamos sentados e depois seguíamos viagem. O passeio é simplismente fantástico. Quando estávamos quase chegando em Marujá, nossa primeira vila no estado de São Paulo, depois de mais de 6 horas velejando, o vento parou novamente e não fez nenhuma mensão de voltar. Conseguimos novamente uma rápida carona até Marujá/SP.
No dia seguinte não tivemos problemas para chegar em Cananéia/SP, uma das cidades mais antigas do Brasil. Percorremos o litoral sul de São Paulo muito mais facilmente do que esperávamos, com paradas em Peruíbe e São Vicente, conseguimos chegar em Santos, a maoir cidade desde que partimos para esta expedição. Chegar e ver tantos prédios, pode parecer bobo, mas foi assustador. Nossa sorte foi termos conhecido José Alberto, presidente da flotilha local, que foi extremamente atencioso e hospitaleiro. Seus pais, Elias e Lena, um casal muito querido, nos convidou para dormirmos em sua casa. Foi ótimo.
Com uma frente fria chegando no dia seguinte partimos de lá. Foram necessárias 3 horas para sairmos de vento contra da Baia de Santos. Depois disso o vento simplismente ficou demasiado fraco e paramos em Guarujá/SP. Local onde permanessemos uma semana sem vento. E quando este finalmente apareceu, foi demais. Velejamos bem afastado da costa, cerca de 10 km para livrarmos todos os costões. Cruzamos diversas embarcações que pescavam ao largo e surpresos seus tripulantes tiravam fotografias.
Conseguimos chegar em Boracéia/SP, foi um velejo muito gostoso. Ficamos hospedados no melhor hotel de toda região, o Salvetti Praia Hotel, do velejador Luciano, que nos deu uma grande força.
Depois de ficarmos uma semana sem vento em Boracéia, e com duas tentativas frustrantes de passar a forte arrebentação, já estávamos agoniados, afinal nos últimos 15 dias tínhamos velejado somente 70 km, uma média que não ultrapasssa sequer a barreira do medíocre. Na sexta-feira dia 13, conseguimos finalmente seguir viagem. Foram 5 horas e meia de vento contra até conseguirmos sair em Boiçucanga/SP. Lá conhecemos o Alexandre, que foi extremamente hospitaleiro, oferecendo sua casa para pousarmos. No dia seguinte partimos de Boiçucanga com vento contra novamente. A correnteza forte prejudicou bastante o nosso desempenho, depois de quase 4 horas de velejo o vento parou. Para nossa sorte conseguimos uma carona até a Ilhabela com uma lancha que passava. Os donos da lancha são pais do velejador local Eduardo Pimenta e já sabiam de nossa aventura.
Ilhabela está simplismente demais. A galera daqui está dando a maior força, especialmente o Plínio, o Adriano e nosso amigo das antigas o Serginho. Fomos conhecer Castelhanos, a cachoeira do Gato. Lugares que não vamos esquecer. Ilhabela é realmente um centro náutico, a loja da WSB aqui é perfeita, o que nos deixou orgulhosos de ser patrocinados por eles. Esperar vento por aqui está uma tarefa agradabilíssima. Dia 15 de agosto foi o aniversário do Flavio e ele estava muito feliz em passa-lo aqui.
Para o próximo trajeto da viagem o Serginho deverá nos acompanhar até o Rio de Janeiro, será uma companhia muito bem vinda, agregando alegria, companheirismo e experiência. Na Ilha Grande, o velejador Alexandre Serrado nos convidou a ficarmos em seu hotel e queremos que ele também nos acompanhe em algum trecho.
As expectativas são as melhores, temos ainda muito pela frente e esperamos interagir cada vez mais com população e velejadores locais. Por:
Diogo Guerreiro e Flavio Jardim
Data: 19/08/04 |