Expedição Norte-Sul: Maior aventura de todos os tempos, velejando de wind todo o litoral do Brasil

O projeto

Velejar todo o litoral brasileiro, do extremo sul até o último ponto na fronteira norte de windsurf. Esse é o objetivo do projeto Destino Azul. Já eram dois anos de preparação intensiva, psicóloga, física e muitos outros aspectos que poderiam fazer deste projeto ambicioso uma realidade.

No início de 2004 tudo começava a convergir para isto. Eu tinha acabado de falar com o Dudu Mazzocato por telefone e ele confirmou o apoio da Naish Brasil para a expedição. Desliguei o telefone e confirmei com o Kauli Seadi, com quem comecei a velejar desde pequeno, que iria com para o Hawaii, já que ele tinha me oferecido uma passagem para droparmos juntos a temível onda de Jaws. Em Maui eu aproveitaria para organizar com a Naish as pranchas, velas e todo o equipamento da viagem.


Começando por uma prova de fogo: Hawaii

No dia dois de Fevereiro de 2004 chegamos em Maui, eu, o Kauli, o Konan e o Flávio, outro membro do Destino Azul. Foi uma viagem incrível e apesar do pouco vento conseguimos no dia 20 de Fevereiro a única condição do ano para velejar Jaws. Como não tínhamos jet-ski, tivemos que pular das pedras, no Light House, o mesmo lugar do filme do Robby Naish. Foi por si só uma experiência assustadora. Depois de duas horas de orça, conseguimos chegar no pico das maiores ondas do mundo. A primeira onda foi indescritível, daquelas que lembrarei pra sempre. Minhas pernas amoleceram e por pouco não cai. A velocidade é enorme e muita força, a ponto de duvidar se sobreviveria a um caldo. Achei que ia me acostumando nas ondas seguintes e quem sabe dar um botton turn à lá Kauli, ilusão. Acho que poderia pegar mais cem ondas e mesmo assim não me sentiria à vontade.

Resultado, saímos vivos a com um pôster alucinante da fotógrafa Julia Deutsch na parede. Depois disso foi focar na viagem Destino Azul e organizar os equipamentos com a Naish. Como seriam muitas horas, ou melhor, meses de velejo seguidos, optamos por velas sem camber, as super modernas Naish Evolution (7 talas) e Sprint (6 talas). Na época não poderíamos imaginar quão certa foi nossa escolha. Quanto à prancha não tivemos dúvida assim que vimos a Naish Titan 160 litros, tamanho e shape ideal para uma expedição como a nossa. Não tão larga como as de Fórmula, mas largas o suficiente para um velejo confortável e eficiente.


Mãos à obra: Rio Grande do Sul!!

Voltamos ao Brasil no dia 05 de maio. Dez dias depois já estávamos no Chuí/RS para dar início a esta difícil expedição, percorrer a costa brasileira em sua extensão máxima, de windsurf e mochilas nas costas, sem acompanhamento de terra ou mar. Neste breve período em Floripa a única adaptação que fizemos, foi pedir ao amigo e projetista Torero para colocar suportes para água mineral nas velas. Cada vela está equipada com 3 litros de água.

O Rio Grande do Sul foi muito mais difícil do que poderíamos esperar. Foram 30 dias de muito esforço físico e desgaste psicológico. Assalto, frio, muito frio, ciclones, calmarias, medo, alegria, tristeza e determinação. Vale lembrar que tivemos fortes frentes frias este ano, trazendo ventos além da velocidade que poderíamos aguentar. Ao chegarmos novamente em Florianópolis, nossa terra natal, fizemos um levantamento da viagem, resultado geral muito bom. Nossa média diária foi inferior ao que esperávamos devido as difíceis condições climáticas enfrentadas, chegamos a percorrer 110 km num dia, mas em outros não conseguimos mais do que 20km. Nossas mochilas impermeáveis se comportaram muito bem e nelas contamos com tudo o que precisamos para sobreviver. Comida, barraca de camping, roupas, GPS, e outros pequenos acessórios. Nossas velas e pranchas Naish mostraram muita resistência e eficácia, por isso decidimos não alterar nada.


Saindo de Floripa

Partimos de Floripa com vento sul fraco que logo se transformou numa calmaria, situação que enfrentamos em todo litoral catarinense. Percorríamos 10, 15 km por dia. Se o Rio Grande do Sul foi difícil pela variedade e força dos ventos, em Santa Catarina o problema foi à falta dele. No momento escrevo do litoral paranaense, em Matinhos. Infelizmente um integrante da Expedição desistiu da viagem. Eduardo Moreira disse não estar psicologicamente preparado para uma expedição como esta. Uma decisão que foi ganhando força a cada obstáculo enfrentado, mas que não força o fim da viagem. Sentiremos a falta do companheiro e amigo fiel de muitos anos, um bravo velejador e aventureiro que conheceu seu limite e soube a hora de parar.


Próximos passos

Pela frente, muita expectativa positiva, esperamos interagir com toda população de velejadores do litoral, conhecer verdadeiramente a costa do Brasil e descobrir mais sobre nós mesmos. Na vida é necessário correr riscos, até que elas se tornem nosso cotidiano, as tempestades nossos sonhos e as calmarias nossos pesadelos.

Diogo Guerreiro

 

Destino Azul
A seguir alguns trechos de emails que o Diogo enviou para o Dudu e partes do diário de bordo. Mais informações no site do projeto: www.destinoazul.com.br

14/5
Dae Dudu, tudo bem? Aqui ja ta tudo em cima pra viagem, hoje a noite estou te mandando algumas fotos. Essa primeira etapa do RS é uma das mais dificeis da viagem, e ela servirá de teste pra uma porção de suposições nossas. Esta etapa do RS tem bem poucos locais para acessar a internet, por isso estamos pensando em fazer toda a divulgação com um pequeno DELAY, o que você acha?

A Valeria Matuck, me escreveu dizendo que eu serei a próxima capa da GUST dropando Jaws, massa!!

Grande abraço
Diogo

15/5
E ai dudu, beleza? Estamos partindo pro Chuí com muita apreensão. Está tudo em cima e esperamos fazer um ótima viagem neste primeiro trecho de litoral que é também considerado um dos mais difíceis do Brasil, devido as condições climáticas e falta de infra-estrutura no litoral.

Nossa intenção é partir do Chuí-RS, na manhã de segunda-feira dia 17 de maio. Estamos levando 3 mochilas impermeáveis com: Barraca de camping, sacos de dormir, fogareiro, alimentos, água, GPS, rádio VHS, walk-talk, roupas, primeiros socorros, entre outros. Quanto aos equipamentos de windsurf, estamos com: 3 pranchas da Naish, modelo Titan com 160 litros, quilha 50; duas velas Naish Evolution 8,3 e uma Naish Sprint 8,0. Testamos os equipamentos em Florianópolis e se mostrou bastante versátil, confortável e planamos com menos de 8 nós de vento.

Essa etapa do Rio Grande do Sul nos dará um impresão mais exata de como será a expedição Destino Azul Norte-Sul. Segue algumas fotos em anexo da preparação.

Grande abraço
Diogo

20 e 21/05
Rio Grande - Cassino/RS

Dois dias sem vento aqui em Rio Grande. Saímos para conhecer a cidade, fomos até os moles da barra. Estou ansioso (Diogo) em seguir viagem, achamos que amanhã pode ser o dia. Vamos esperar!

22/05
Bojurú/RS

Saímos de Rio Grande logo após uma entrevista para RBS. Eram dez horas da manhã e saímos do lado sul dos moles da barra. O vento tava leste e nosso rumo leste/nordeste, o que significa contra vento. Rendeu muito pouco, tivemos que velejar 6 horas para que fizéssemos algum progresso. Nossa entrevista saiu no Jornal do Almoço. Quando estávamos passando por um pequeno vilarejo a uns 15 km de Rio Grande, várias pessoas que tinham nos visto na TV estavam esperando nós passarmos. Estamos em uma pousada em Bojurú, uma pequena vila com 2 mil habitantes.

23/05
Quintão/RS

Estamos bem próximos a Bojurú, outra pequena vila, mas esta um pouco maior. O vento aqui está contra, esperamos que melhore para amanhã. Estes dois últimos dias tem chovido bastante, o que desanima a todos. Chuva é sempre chato, ainda mais longe de casa e no mar. Estamos vivendo com muito pouco conforto, mas ainda não estou sentindo falta. O equipamento está bem regulado e os velejos em geral estão confortáveis. O vilarejo é pequeno a a grande maioria dos estabelecimentos comerciais só abrem no verão. A pesca é um aspecto crucial na renda das famílias locais.

25/05
Tramandaí/RS

Estamos a dois dias aqui. É o maior centro urbano desde que saímos para esta expedição. A cidade tem 40 mil habitantes mas recebe até 1 milhão de turistas no verão. O tempo ainda está de lestada o que faz chover muito. Hoje estou(Diogo) chateado, pois estávamos monitorando uma frente-fria pela Internet que iria nos ajudar a seguir viagem rumo norte, mas infelizmente a frente ganhou força e acho, ou melhor, tenho quase certeza que não vamos conseguir. É um ciclone extra-tropical, com ventos de até 90km/h e ondas com mais de 4 metros. Amanhã às 7 horas da manhã vamos dar uma olhada na praia e ver se dá para tentar. A noite vai ser longa!

26/05
Tramandaí-Imbé/RS

Acordei(Diogo) ás 6 horas, ainda tudo escuro, o vento fazendo a casa tremer e nós também. Fui até a beira do mar, não dava para ver nada, pois tava noite ainda. Voltei pra casa e esperei até às 6:50 horas. Nós três saímos de casa e fomos na praia. O vento estava furioso uns 70 km/h. Resolvi então que faria uma tentativa de velejar, mesmo sabendo que meu equipamento não era adequado para aquelas condições. Com vento vinde de oeste saí velejando bem junto da praia, fazendo muita força. De vez em quando o vento me levantava e me jogava longe. O desempenho estava bom, eu estava a 50 km/h. De repente algo trancou minha quilha e levei a primeira de duas catapultas. Machuquei um pouco minha perna esquerda e deu um pequeno quebradinho na prancha, nada preocupante. Eram os cabos de redes de pesca espalhadas ao longo do litoral. Tive que sair da água. O vento estava forte demais para que eu pudesse velejar mais no fundo. Vamos tentar amanhã novamente.

30/5
E ai dudu tudo bem? Estamos em Atlântida, a 50 km de Torres divisa do Estado com Santa Catarina. A passagem de um ciclone extra-tropical por aqui foi fogo. No Primeiro dia velejei durante 30 minutos com ventos de 35 a 40 nós. Incrivel o material aguenta mesmo vento. Eu só velejei pois o vento era totalmente terral e o mar tava baixo, deu pra fazer alguns km. Nos dois dias seguintes não teve condições, o mar tava gigante e a arrebentação muito dificil. Estamos esperando por vento.

Por: Diogo Guerreiro
Data: 21/07/04

 
 
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