Depois de retornarmos de Fernando de Noronha, ficamos uma semana à espera de nossos equipamentos que retornaram de navio, em Parnaíba, na casa de nossos amigos velejadores Daniel e Ariosto Ibiapina. A semana foi tensa em função de uma epidemia de dengue na região em que estávamos. Para se ter uma idéia, na casa, todos, Daniel, Ariosto e Tereza, estavam com dengue. Nosso medo era de que ficássemos com o vírus encapsulado e que os sintomas só aparecessem quando estivéssemos num local deserto.
Partimos de Pedra do Sal, em Parnaíba/PI, com muita ansiedade. Pela frente um trecho demasiadamente deserto, com muito poucos pontos de apoio e para trás nos despedimos de nossos amigos que apesar do pouco tempo, criamos um grande laço de amizade.
Com nossa carga máxima de água e comida, o que ainda é pouco, cruzamos velozmente o Delta do Parnaíba e os 90 km até Tutóia/MA sem ver nenhum sinal de vida humana na praia, somente no mar, nossos companheiros inseparáveis de expedição: os pescadores.
Tutóia é uma vila de pesca bastante agradável. No início da noite de todos os dias da semana, centenas de jovens que saem da aula se reúnem nas ruas, o que torna a cidade um local muito interessante para interagir com a população local.
Com uma brisa fraca partimos com rumo à Caburé/MA, vila que se situa no início dos Lençóis Maranhenses. O vento depois de duas horas ganhou força e ficou realmente bom. Há cerca de 4 km da costa cruzávamos os barcos pesqueiros com velocidade máxima, proporcionando para eles, no mínimo, uma visão curiosa. O velejo estava tão bom que em determinado momento decidimos sair do mar num trecho de praia deserto, aliás, como toda região nos lençóis, para preparar a câmera presa na cabeça para uma filmagem. Quando retornávamos ao mar, uma onda quebrou em cima de mim (Diogo) e simplesmente rasgou minha vela completamente, dividindo-a em dois. Na hora ficamos com um frio na barriga, afinal sabíamos se tratar de um trajeto deserto e tínhamos rezado para não quebrar nada nesta etapa.
Olhando um para o outro, pensamos nas possibilidades, não tínhamos muitas opções, ninguém viria nos resgatar, não tínhamos como ligar, pois não tinha sinal do celular. Resolvemos que o Flávio seguiria sozinho até a próxima vila e tentaria alguma ajuda. Quando ele viu que estava anoitecendo e não via sinal de vila, resolveu sair, desmontar a vela e voltar com ela caminhando na minha direção. Depois de quase três horas de caminhada chegou exausto onde eu estava. A essa altura me preparava para acampar. Montamos a vela do Flavio no meu equipamento e ele entrou novamente no mar ao anoitecer e eu voltei caminhando e arrastando minha vela. Depois de mais de 3 horas de caminhada arrastando a vela, cheguei onde o Flavio estava, um barraco de pesca abandonado no meio do nada. Dormimos ali mesmo, direto na areia, cansados, nem montamos a barraca. Amanheceu e voltamos a caminhar; e para nossa surpresa, Caburé, uma pequena vila, estava a menos de uma hora de caminhada.
Visitamos os Lençóis Maranhenses, que são simplesmente incríveis, um dos locais mais bonitos da nossa costa. Fizemos também um velejo com o equipamento do Flavio no Rio Preguiça, local belíssimo.
No momento estamos em São Luis/MA, na casa do velejador Cláudio Guimarães, esperando por outra vela para seguirmos em frente com a expedição, que agora deverá encontrar os trajetos mais difíceis, com imensas partes desertas, selvagens, e sem pontos de apoio para aquisição de água, nosso ponto mais vulnerável. Aqui junto com velejadores experientes da região, deveremos traçar uma estratégia segura para enfrentar esses três duros últimos estados, Maranhão, Pará e Amapá.
Estamos bastante apreensivos. Por:
Diogo Guerreiro e Flavio Jardim
Data: 22/06/05 |