De Tobago a Dominica

11 janeiro, 2009



Tobago:

O vento soprava contra e o Itusca, que cavalgava as ondas persistentemente, carregava consigo além de mim (Diogo) e Flavio, mais três pessoas: Mailyn, minha esposa, Morongo, nosso patrocinador e sua esposa Marisa. Trinidad desaparecia sob o dia nublado enquanto Tobago, sua ilha irmã, tentava com dificuldade surgir à nossa frente. Era noite escura quando finalmente chegamos e baixamos a âncora sem saber o que esperar de Tobago. A água é clara? O povo é amigável? A ilha é montanhosa ou plana?

A noite levou consigo praticamente todas as nuvens e nos sentimos bem vindos à pouco povoada ilha. Na imigração tivemos sorte porque conhecemos um brasileiro – Marcelo - que estava de veleiro há dois meses ali e nos passou várias dicas dos locais que deveríamos conhecer.

Navegamos rumo a nosso primeiro destino, a baia de Pigeon Point. A ilha se mostrou, logo nas primeiras curvas, um lugar muito bonito, e as primeiras perguntas que havíamos nos feito estavam sendo respondidas de forma promissora.

Pigeon Point é um local bem pacato e na ancoragem havia somente cinco veleiros. A água clara era um convite para mergulharmos. Por dois dias mantivemos uma rotina de contemplação e alguns esportes. Velejamos de kite, mergulhamos e remamos em nosso caiaque e sobre a prancha de paddle surf.

De lá seguimos para a ponta nordeste da ilha, um lugar chamado Charlotte Ville. Pouco antes de chegarmos cruzamos com um pequeno barco pesqueiro que puxava algumas linhas de currico. Com linguagem gestual perguntamos se haviam pescado algo e recebemos uma resposta positiva. Também gestualmente eles nos disseram que iriam depois ao nosso barco.

Charlotte Ville surgiu como uma baia profunda e protegida por montanhas mais altas que as encontradas nas outras partes da ilha. Um punhado de veleiros se abrigava num pequeno recanto na parte norte da baia, conhecida com a baia dos Piratas. Foi ali que soltamos âncora, prestes a conhecer um local muito especial. A mata verde e cheia atrai a atenção para si e o uso de uma máscara de mergulho possibilita fazermos uma transição para um cenário tão magnífico quanto. Alguns corais pareciam coqueiros e dançavam ao sabor da maré. O pequeno pesqueiro que havíamos encontrado encostou ao nosso lado e mostrou um belo atum e fizemos um ótimo negócio para ambas as partes.

Embarcamos em nosso bote inflável e rumamos para conhecer a vila. Imediatamente percebemos que se tratava de um vilarejo muito simples, preservado e acolhedor. Entramos num restaurante de frente para o mar. As mesas eram todas diferentes e existiam duas paredes em forma de “L” que delimitavam o lugar. Peixe ou frango? Cada um fez a sua escolha e aguardamos. É estranha a sensação de chegar de veleiro num lugar desconhecido e descobrir ali algo especial. Charlotte Ville é um lugar assim. Tudo é especial e podemos sentir a energia positiva. O povo sorri e acena com a cabeça quando passamos. E nós tivemos dificuldade em manter o sorriso guardado enquanto esperávamos nossa comida.

Passamos alguns dias ancorados da baia dos Piratas. Todos os dias surfamos de paddle surf, mergulhamos e passeamos no vilarejo. Na pequena praia, em frente ao barco, um pequeno riacho serviu para esfregarmos algumas bermudas e camisetas usadas.

Num dia fomos convidados por Frank, pescador local, para sairmos numa pescaria. Eu e o Flavio aceitamos e às 6hs da manhã embarcamos no pequeno barco de madeira. Seria um longo dia e se soubéssemos disso talvez não tivéssemos embarcado. Por seis horas sacudimos e nos molhamos sob o sol escaldante na tentativa de pescarmos o apreciado King-Fish. O método usado por todos os barcos na região é o currico. Cinco linhas são soltas e arrastadas com lulas artificiais enquanto o barco ziguezagueia o mar. Frank observava sinais que não conseguíamos detectar. Um peixe voador, um pássaro, uma nuvem. Mas não encontramos o King-Fish. As horas passaram maltratando o nosso corpo e pudemos valorizar a persistência desses pescadores. Foi bom também porque aprendemos algumas técnicas para pescarmos no Itusca.

Partimos de Charlotte Ville um pouco tristes, mas também ansiosos para saber o que encontraríamos em nosso próximo destino: Grenadines e St. Vicent.

St. Vicent and Grenadines

A travessia de 160 km até as Grenadines foi excelente e nosso veleiro cortou velozmente a água quente e clara do Caribe. Tobago é um local de transição entre a América do Sul e o Caribe e por isso estávamos ansiosos para chegar logo.

Nossa primeira parada caribenha foi Tobago Keys, um conjunto de ilhas planas, areia branca e água cristalina. Diversas cenas do filme Piratas do Caribe foram filmadas ali.

Partimos de Tobago Keys sem saber qual seria nossa próxima escala. Isso é o bom de viajar de veleiro, com um ajuste nas velas, e uma leve mudança no leme, nós podemos ir para diversos destinos. Decidimos conhecer Béquia, uma ilha de velejadores. A enorme baia abriga uma centena de barcos. As montanhas ao redor nos fez sentir ainda mais bem acolhidos. Seguimos nosso ritual e saímos para caminhar e explorar a ilha.

O Caribe atrai todos os anos milhares de veleiros que passam meses navegando suas águas. É muito fácil entender o por quê. Especialmente na parte leste, as ilhas formam um largo “C” e uma ilha fica sempre próxima de outra. Algumas são muito movimentadas e preparadas para o turismo e às vezes, na ilha ao lado vive somente a população local com seus costumes particulares. Em alguns locais os nativos tem iguanas como animal de estimação e vimos um que tinha tanta intimidade que mordia a língua do animal. Os barcos apresentam igualmente um amplo contraste. Barcos pequenos e quase destruídos dividem os ancoradouros com mega-iates de bilionários.

Outro fator de atração no Caribe é sua posição geográfica. Além de ficar dentro da área de abrangência dos ventos alísios (ventos constantes que sopram o ano inteiro), a temperatura do ar e da água é perfeita.

Seguindo nossa intenção de explorar as Grenadines, fomos para glamurosa ilha de Mustique.

St.Vicent é a capital das Grenadines e nos dirigimos para lá sem saber o que esperar. Paramos na Blue Lagoon, uma pequena baia cercada de arrecifes. Do barco observamos ondas quebrando no lado sul da baia e sem pensar duas vezes pulamos com nossas pranchas no mar.

As ondas não estavam grandes, mas eram muito divertidas e sufarmos por três dias só eu, o Flavio e o Morongo. O astral de surfar ao lado do veleiro é demais e só foi uma pequena amostra do que encontraremos pela frente.

À medida que seguimos para o norte de St.Vicent, encontramos locais pouco explorados turisticamente e mergulhamos num cenário de tirar o fôlego. A montanha escarpada é pontilhada por algumas casa e plantações tão íngremes que só fazendo rapel deve ser possível plantar e colher.

Martinique e Dominica

A travessia entre Sta. Lucia e Martinica foi com ventos fortes e mar agitado. A bordo, para passar alguns dias conosco estava nosso amigo Bernardo Santos.

Chegamos em Le Marin, uma enorme baia muito protegida e dividimos o ancoradouro com centenas de barcos. Como de costume nos dirigimos para fazer a aduana e a imigração e descobrimos que era necessária a presença de um visto. Como não possuíamos, a polícia veio me entrevistar. Por algum momento a situação pareceu tensa, mas felizmente nos emitiram vistos para 4 dias.

Apesar de estarmos no Caribe, Martinica representa muito bem o país ao qual faz parte: a França. Além, obviamente da língua ser o Francês, a comida e a arquitetura também lembram muito.

Como nosso visto ia expirar, seguimos adiante para Dominica. Na travessia entre as duas ilhas soltamos nossas linhas como aprendemos em Tobago e com lulas artificiais nas extremidades. Sentimos uma forte puxada. Tínhamos fisgado algo grande! Flavio começou a recolher a linha e não nos custou 1 minuto para descobrirmos o que havíamos fisgado. Um enorme e incrível Dourado. Ele era o peixe mais lindo que já havíamos visto e parecia saber disso porque dava saltos altos ao lado do barco. Quando ele rompeu a linha, não conseguimos ficar chateados.

Sendo uma ilha inglesa, não tivemos problemas com imigração. Sabíamos muito pouco sobre essa ilha e notamos imediatamente que o número de veleiros ancorados era muito reduzido se comparado com as outras ilhas que havíamos visitado. Felizmente, para nós que gostamos de veleiros, ficamos deslumbrados quando um mega - super veleiro ancorou ao nosso lado. Seu nome é Falcon e recebeu o prêmio de melhor iate construído nos últimos 100 anos. Ele está à venda pela barganha de 118 milhões de Euros. Alguém quer comprar?

Dominica é uma ilha vulcânica alta e a exploração de seu território foi muito dificultada pelo relevo dramático, o que por outro lado ajudou a preservá-la. Enquanto percorríamos a ilha em direção ao norte, contemplamos felizes a bela encosta beijada pela água azul. Alguns peixes grandes se aproximaram do barco e fizemos um ótimo mergulho.

Na parte norte da ilha, fizemos um belíssimo passeio no Indian River. Fomos com o guia local Andrew que era também nosso remador. No rio que serpenteia pela floresta tropical não é permitido motor. Era uma paisagem e um ecossistema que não esperávamos encontrar no Caribe. Mais uma vez encontramos outra locação do filme Piratas do Caribe…

Estamos prontos para seguir rumo norte. Nossa próxima parada prevista é Guadaloupe.